Imagina se toda saudade virasse texto…

“Imagina se toda saudade virasse poema. Se toda vontade virasse música. Se todo bem querer virasse texto. Imagina se a gente, ao invés de só se perder, destoar, desafinar, soubesse o que fazer com ela. A mais cruel e insípida. Essa senhora que vive de testar a força dos amores alheios. Saudade.

Têm dias que eu acordo com a certeza de te ter por, pelo menos, durante uma noite inteira. Como se por vinte e quatro horas, todo o meu desejo de ser feliz fosse saciado em abraços apertados e beijos cheios de calor. Como se só de estar respirando o mesmo ar, nariz com nariz, a gente sentisse a felicidade encher os pulmões.

Outros dias, a gente acorda depois das 12, com a vontade de que o dia acabe logo. Rezando pra rotina voltar. Pro cotidiano chegar. Pros fim de semana passar. É que durante poucos, mas existentes e insistentes dias, meus olhos não fitam os teus.

No meio do caos que se é, raras vezes alguém consegue ser capaz de ver além das partes. No meio de um dia comum, te encontram, te olham, te descobrem. Viram tua vida ao avesso. Reviram teus conceitos. Te apresentam a paz.

De pouco me vale a sorte de amuletos. De nada adianta pés de coelhos, ferraduras ou folhas com quatro pontas. Depois que os teus castanhos fitaram os meus, a sorte embebedou meu ser, tal qual a luz da manhã penetra sorrateiramente pela janela do quarto azul. Raros. Tenho hoje esses olhos.

Imagina se a gente, ao invés de só se perder, destoar, desafinar, soubesse o que fazer com ela. Imagina se toda saudade virasse texto. Se toda vontade virasse poema. Se todo bem querer virasse música. Imagina se a gente morasse junto, se os nossos filhos já tivessem nascido, e se o nosso cachorro já corresse conosco na areia da praia…

Já que nem só de imaginar sobrevive o homem, sonha. Porque as imagens o vento leva, mas sonhos os anjos da boca mole dizem – amém. De cá, da solidão das minhas almofadas, travesseiros e cobertores, sigo com ela. A mais cruel e insípida. Essa senhora que vive de testar a força dos amores alheios. Saudade.”

(Matheus Rocha)

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