Como é que eu posso dizer…

“Só hoje, depois de toda uma vida regada a desistências, resolvi assumir: eu sempre gostei do impossível, porque isso justificava a minha covardia. Sim, meu amigo, sou um covarde. Um covarde do amor. Eu, simplesmente, tenho medo disso. Disso de me apaixonar.

Desde muito cedo, entendi que o amor não era pra mim. Percebi que sim, ele existia. Ele era lindo, até demais para o meu gosto. Mas também era muita areia para o meu coraçãozinho. Por isso, acabava sempre indo embora.

Talvez eu devesse pedir desculpa a toda essa gente que eu deixei feliz, mas não liguei no dia seguinte. Pedir perdão por não ter sido forte o suficiente para sentir de volta. Pedir clemência por ser tão inseguro.

A verdade é que eu nunca fui capaz de me entregar verdadeiramente, por medo. Medo não, pavor. Pânico. Eu, durante todas as histórias que entraram na minha, nunca tive coragem de ficar. Sempre me envolvi até um determinado ponto. O ponto que era hermeticamente seguro para não amar de volta.

E, quando o coração acelerava, quando as mãos suavam, eu corria. Mas corria como quem tem gana de ganhar uma maratona. Como um sedento por água no deserto corre em busca de uma miragem. Eu, simplesmente, nunca me sentia seguro para gostar de volta.

No fim, todo o meu ciúme sempre foi uma forma de defesa. Eu sempre senti que seria trocado a cada nascer do sol. E, ao enoitecer, eu estaria ali, de novo, sozinho. Chorando. Sem colo.

O medo de confiar e quebrar a cara é só uma característica de um coração que já amou demais e hoje, ah, hoje ele luta para conseguir sobreviver com o que restou. Tentando não perder mais partes fundamentais de si mesmo.

Depois de mergulhar em mim, percebi que todos os meus amores platônicos vieram da minha falta de segurança. Eu nunca tive coragem suficiente para deixar que gostassem de mim. Eu sempre dei motivos para que fossem embora. Eu sempre procurei a desculpa esfarrapada perfeita para, como é que eu posso dizer… Fugir.

Engraçado. Mesmo fujão, eu sempre quis que alguém fosse capaz de aparecer e mudar tudo, sabe? Alguém que mesmo percebendo que eu estava morrendo de medo e dando todas as desculpas para não gostar de volta, quisesse ficar. Alguém que não desistiria de mim, não importa quantas vezes eu mesmo fosse desistir.

Hoje não seria piada, eu realmente queria um abraço. Mas não qualquer um. O seu. A verdade é que depois de tanto fugir, os meus pés cansados resolveram deixar de ouvir meus pensamentos. Agora eles é que disseram que não dariam mais nem um passo.” (Matheus Rocha)

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Imagina se toda saudade virasse texto…

“Imagina se toda saudade virasse poema. Se toda vontade virasse música. Se todo bem querer virasse texto. Imagina se a gente, ao invés de só se perder, destoar, desafinar, soubesse o que fazer com ela. A mais cruel e insípida. Essa senhora que vive de testar a força dos amores alheios. Saudade.

Têm dias que eu acordo com a certeza de te ter por, pelo menos, durante uma noite inteira. Como se por vinte e quatro horas, todo o meu desejo de ser feliz fosse saciado em abraços apertados e beijos cheios de calor. Como se só de estar respirando o mesmo ar, nariz com nariz, a gente sentisse a felicidade encher os pulmões.

Outros dias, a gente acorda depois das 12, com a vontade de que o dia acabe logo. Rezando pra rotina voltar. Pro cotidiano chegar. Pros fim de semana passar. É que durante poucos, mas existentes e insistentes dias, meus olhos não fitam os teus.

No meio do caos que se é, raras vezes alguém consegue ser capaz de ver além das partes. No meio de um dia comum, te encontram, te olham, te descobrem. Viram tua vida ao avesso. Reviram teus conceitos. Te apresentam a paz.

De pouco me vale a sorte de amuletos. De nada adianta pés de coelhos, ferraduras ou folhas com quatro pontas. Depois que os teus castanhos fitaram os meus, a sorte embebedou meu ser, tal qual a luz da manhã penetra sorrateiramente pela janela do quarto azul. Raros. Tenho hoje esses olhos.

Imagina se a gente, ao invés de só se perder, destoar, desafinar, soubesse o que fazer com ela. Imagina se toda saudade virasse texto. Se toda vontade virasse poema. Se todo bem querer virasse música. Imagina se a gente morasse junto, se os nossos filhos já tivessem nascido, e se o nosso cachorro já corresse conosco na areia da praia…

Já que nem só de imaginar sobrevive o homem, sonha. Porque as imagens o vento leva, mas sonhos os anjos da boca mole dizem – amém. De cá, da solidão das minhas almofadas, travesseiros e cobertores, sigo com ela. A mais cruel e insípida. Essa senhora que vive de testar a força dos amores alheios. Saudade.”

(Matheus Rocha)